
E assim chegou a minha primeira "hora di bai", um sentimento bilingue assalta-me, engulo em seco e o meu coração aperta-me. Evito chorar aqui e agora. Quando penso neste ano que passou, uma película de imagens e vivências corre-me na mente a mil à hora. O ser humano é capaz de aguentar muito mais do que aquilo que julga de si próprio. E quando penso nos 10 meses e 17 dias que passei longe de casa, não consigo acreditar e parece que tudo que tive e vivi foi um sonho. Começo, por isso, a delinear estratégias para controlar esta ansiedade que me consome e não me deixa dormir. Confesso que tenho vontade de dormir estes dias até chegar a hora de ir, mas isso seria o fácil e não passaria eu por mais este processo de crescimento.
Este foi um ano em que cresci como nunca, em que tive mesmo a consciência de um crescimento. Durante a nossa vida crescemos naturalmente, sem nos darmos conta disso. Ano após ano estamos diferentes, "mais grandes", mais maduros, mas nunca o sentimos claramente e assinalado no calendário. Pela primeira vez, tenho esse discernimento claro e preciso - consigo apontar as datas em que me tornei maior, adulta e quando muitas vezes deixei cair o meu véu cor-de-rosa, que me cobre os olhos e me guarda a vida.
Vim para um outro país, um outro continente. Língua, cultura, gentes, danças, música, relações, paisagens, histórias e estórias diferentes. Pela primeira vez só, livremente e convictamente só. Pela primeira vez saber em concreto e na pele o que é a saudade. Longe da minha família, dos meus amigos, do meu espaço, do meu berço e das minhas raízes, de tudo o que formou a mulher que sou hoje. O meu primeiro emprego, a minha primeira casa e o meu primeiro amor... Tudo em apenas 10 meses e 17 dias.
E agora aproxima-se mais uma experiência forte, dessas do crescimento. O regresso. Voltar a casa, a ver os meus, tudo que foi sempre meu e será sempre mesmo que eu esteja fora durante anos. No regresso tudo que é meu vai estar diferente e eu tenho que aceitar isso, porque a vida é mesmo assim, é transformação, é mudança, é andar para a frente. Afinal eu também mudei e tudo que é meu vou vê-lo com o olhar transformado, com a alma de quem andou por mundos diferentes e plantou lá também algumas raízes.