15 outubro 2008

Tarrafa's fall II

E a nossa saga teve uma sequela...


Nos praia Presidenti


O nosso complexo habitacional


Ponta de Atum


Paulinha, com ar de veraneante a beber água de coco. A presença que fez do meu Tarrafal um lugar ainda mais especial.


A histórica inscrição TARRAFAL, com Paulinha e Helder


Na ida para o Tarrafal, a Iara demonstrou toda a sua perícia fotográfica tentado cegar o Helker e matar-nos a todos.


Viagem muito feelingada. Iara, Helker eu e ao fundo o Mário (nao se vê mas ele está lá!)



Paulinha e Sori por entre o nevoeiro da Serra Malagueta



Eu e a Iara a sofrer com o frio da Serra Malagueta


Red neck Sori

Paulinha e Iara com praia Presidenti ao fundo

O peixinho para o nosso almoço

A melhor grelhada é no Tarrafa's Fall

Helker no seu local preferido do Tarrafal - a sua rede



Eu e Paulinha, versão Cabo Verde


Almoço no Sol & Luna, o lugar dos esparguetes fartos e do peixe fresquinho

Credo.. Helker, Carlinhos, Ruca, senhor das rastas pelos tornozelos e Sori


Despedindo de mais um fim-de-semana na Tarrafal (apesar de estarmos na Serra Malagueta)

Tarrafa's fall I

Fim-de-semana e o pessoal reúne-se para se alhear do mundo e passar sabi no Tarrafal, also known as Tarrafa's Fall. Ficam aqui momentos para a vida!


O grupo todo a comer o belo do frango corado, bombástico até para os estomagos mais fortes!


Sori, eu, Mina, Iara, Rui e Lúcia



O trio maravilha, que se mataram várias vezes do matadouro.



El comandante, Djulai


Iara and her pink guitar


O Mina está doido!

Red neck Mina e Sori

Tocatinas nocturnas



O Regresso à Praia na Serra Malagueta e na Assomada


Vista sobre Santiago




Euro 2008

Eu sei que é tarde e que o Euro há muito acabou, mas só agora tive acesso a estas fotos.



Jorge depois de perder a aposta em que Portugal ganhou à Turquia. Atentem à testa!!!


Sori, Ana e eu. Sempre PORTUGAL!



Banda Sonora

Plush - Stone Temple Pilots

And I feel that times a wasted go
So where ya going to tommorrow?
And I see that these are lies to come
Would you even care?
And I feel it
And I feel it

Where ya going for tommorrow?
Where ya going with that mask I found?
And I feel, and I feel
When the dogs begin to smell her
Will she smell alone?

And I feel, so much depends on the weather
So is it raining in your bedroom?
And I see, that these are the eyes of disarray
Would you even care?
And I feel it
And she feels it

Where ya going to tommorrow?
Where ya going with that mask I found?
And I feel, and I feel
When the dogs begin to smell her
Will she smell alone?

When the dogs do find her
Got time, time, to wait for tomorrow
To find it, to find it, to find it
When the dogs do find her
Got time, time, to wait for tomorrowT
o find it, to find it, to find it

Where ya going for tommorrow?
Where ya going with that mask I found?
And I feel, and I feel
When the dogs begin to smell her
Will she smell alone?

When the dogs do find her
Got time, time, to wait for tomorrow
To find it, to find it, to find it
When the dogs do find her
Got time, time, to wait for tomorrow
To find it, to find it, to find it
To find it
To find it
To find it

*Música repetida muitas vezes, mas que sempre nos fará lembrar dos fins-de-semana no Tarrafa's fall

07 outubro 2008

Volviendo

Quem costuma visitar a Tendinha está habituado às suas ausências. A escrita é só quando aparece o "filing", como se diz por cá, e as minhas luas nunca estão para lá viradas. Não, não fui contagiada pelo sítio onde trabalho, afinal já passaram dois meses...



Nestes dois meses muitas histórias por contar: o primeiro Agosto não catastrófico da minha vida, o concerto dos Nameless Project, os meus meninos da Moradia e arredores, a viagem à Boa Vista, o nosso Tarrafal... Mas a última semana foi particular em acontecimentos marcantes: nasceu uma estrelinha - o Diego, soube que outra vai nascer em Maio, o meu/minha irmãozinho/ãzinha, e o Pedro que ganhou o Prémio Revelação de Jornalismo em Angola.



A todos desejo-vos o mundo em felicidade e eu cá estarei sempre para me rejubilar com os vossos sucesso.



A primeiro foto do filhote/a dos meus paizinhos Pedro e Soraia



O Diego, outra estrelinha na minha vida






A foto que me trouxe o primeiro sorriso do dia. A minha Luna.


Estou orgulhosa de ti, Pedro.


31 julho 2008

Inquietação do(s) dia(s)

"Não consigo dominar este estado de ansiedade
na pressa de chegar, para não chegar tarde...

Estou bem onde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou..."

Por que é que é sempre assim comigo, em tudo na vida?

23 julho 2008

Chás e genocídios


Naquele dia 21 de Julho de 2008, Dragan Dabic contemplava pela janela do seu apartamento no centro de Belgrado o frenesim matinal de um novo dia da capital sérvia. Enquanto espiava o céu nublado, analisando assim a influência meteorológica na energia dos chakras, bebericava um chá fumegante de tília e ginseng. Prolongava-se no prazer daquele sabor raramente metalizado com aroma de caramelo. Ele gostava deste tempo pairado, num minuto zero.

Fechou os olhos para melhor se demorar naquele momento e, de repente, invade-lhe a imaginação uma cena de dezenas de cadáveres empilhados desordenadamente numa vala comum e chega mesmo a sentir o cheiro fétido da carne em decomposição. Revolta-se-lhe o estômago e uma náusea incontrolável sobe-lhe pelo esófago até explodir num vómito aliviante.

Perturbado com tão estranha perturbação do seu íntimo mental e físico, decide não mais ver noticiários de televisão, nem ouvir os blocos radiofónicos e muito menos ler jornais. Só mesmo essas imagens atrozes exaustivamente transmitidas pelos media lhe poderiam provocar tal constrangimento. E logo na sua hora contemplativa do dia!

Esquecendo o infeliz episódio matinal, Dragan Dabic monta na bicicleta, o seu meio de transporte preferido. Aliada ao Tai-chi que pratica todas as manhãs, ambos os exercícios garantiam a manutenção de “mens sana in corpore sano”. Entrou na clínica de medicinas alternativas às 8h em ponto e o cheiro de incenso tranquilizou-o. Seguiu pelo corredor dos acupuncturistas, saudando-os inclinando cordialmente a cabeça – apesar de ter passado anos a estudar a doutrina chinesa continuava fiel ao cristianismo ortodoxo, de onde extraia as lições de meditação.

A sala onde dava as suas consultas de bioenergia, matematicamente decorada segundo as regras do feng shui, abraçava-o e ali podia estender-se nos seus estudos e análises sobre o equilíbrio de forças do ser humano e da Natureza. O primeiro discípulo (era assim que chamava a quem recorria aos seus serviços, pois acreditava que ensinava as pessoas a lidar com as suas descompensações de energia) do dia chegaria apenas às 9h. Entretanto poderia debruçar-se sobre o seu artigo para a revista Zdarv Zivot consultando os livros de Bioenergologia hindu, que um colega lhe tinha trazido de um antiquário perdido algures em Bombaim.

Inspirou fundo para sentir a fragrância quase doce que os livros antigos libertam. Fechou pela segunda vez no dia os olhos. E viu-se a si próprio, sem a barba e sem as longas melenas brancas que o caracterizam, impecavelmente penteado como se tivesse passado por um barbeiro de hotel cinco estrelas. Vestido com um vaidoso Armani preto dava ordens a um homem que lhe parecia familiar – sensação que tinha pela forma como as palavras lhe saiam da boca e não por realmente conhecer a pessoa, que devia ser um general, pela farda e medalhas que ostentava. O seu nome é Radko Mladic.

“Matem-nos a todos! Demos-lhes a oportunidade de regressarem às suas casas. Não quiseram, agora exterminem-nos, violem as suas mulheres e deixem as suas crianças órfãs. Limpem-nos desta terra, para que a Bósnia volte a ser um lugar puro.”, ouviu-se. Mladic acenou afirmativamente com a cabeça, elevou a mão recta à cabeça, tocou os calcanhares e foi ordenar a matança de 8 mil homens e rapazes bósnios-muçulmanos.

Dragan Dabic libertou-se de mais este devaneio matinal quando bateram asperamente na porta da sua sala. Confuso, não entendia a razão para aquelas visões tão claras que se assemelhavam a memórias. Engoliu em seco, estava encharcado em suor. Levantou-se pesadamente do seu cadeirão ergonómico e foi ver quem o acordou daquele despropositado pesadelo.

Assim que abriu a porta e cruzou os olhos com Vladimir Vukcevic, uma película cinematográfica de assassinatos, conluios, apertos de mão, facadas nas costas, cantos de poesia épica acompanhados a guitarra rodou na sua cabeça à velocidade de menos de um segundo. Automaticamente, tudo lhe apareceu claro e translúcido.

Dragan Dabic, ele próprio, era, afinal, Radovan Karadzic, o líder sérvio e um dos senhores da guerra que matou a Bósnia no inicio dos anos 90 e fez mais de 200 mil mortos, a maioria depositados em valas comuns ainda hoje por descobrir. Estava a ser preso por aquele procurador para crimes de guerra por genocídio e foi nesse dia, 21 de Julho de 2008, que deixou de interpretar o papel de terapeuta “new age” e voltou a ser o vaidoso e caricato médico, poeta, assassino e defensor da limpeza étnica e dos ideais da Grande Sérvia.

22 julho 2008

Inquietação do dia

Estou farta! = fartinha, cheia, não posso mais, já me causa náuseas, estou a rebentar pelas costuras, a perder as estribeiras, a entrar em descontrolo, a colapsar em relação a uma certa e determinada coisa que me acontece constantemente desde que me entendo por gente. Porra!

Estou FARTA!!!!!

17 julho 2008

Noticiário das 20h



20 horas em ponto. O sonoro relógio em contagem decrescente da televisão marca o passo do seu posicionamento disfarçadamente profissional para ver o Jornal da Noite. O encontro é certo e pontual. Sabe que ele apareceria, só não tinha a certeza porquê.

Corte de fitas, lançamento de primeiras pedras, estado da Nação, pêsames a um qualquer falecido importante? Qualquer que fosse a razão, nenhum deles faltaria à certeza do encontro. Impreterivelmente.

Ele enquadrado por um “close up”, esverdeado pela luz desregulada da camera, cercado por vários microfones pseudo-inquisidores. Ela não se acomoda no sofá para não transparecer a sua demasiada atenção, mantém os músculos do rosto contraidamente inexpressivos e finaliza cada discurso (dele) com uma risada nervosa e um comentário de quem-percebe-muito-de-todos-os-assuntos-e-problemáticas.

Em cada peça segue a mesma rotina protocolar. Automática, capta o tema a ser tratado para calcular uma opinião e, depois, troca o chip cerebral (basta-lhe sintonizar o “punctum” da peça para saber o que ele vai dizer sem ter que o escutar. Nove anos dos mesmos discursos, de máscaras e brilhos diferentes, não luzem nenhuma revelação).

Enquanto assiste os 2-3 minutos de roda de imprensa, a imaginação viaja alcançando um diálogo esquizofrénico. Ouve-o declarar à nação:

Convoquei todos os órgãos de comunicação social para informar que a amo, exclusivamente e unicamente a ela. Que todas as temáticas estruturais e conjunturais do país são pouco significantes se comparadas à paixão incondicional que por ela nutro. No âmbito do inenarrável encanto que ela emana, asseguro que a minha vida está subjacente à sua vontade”.

Fim de citação.

O rosto (dela) mantém-se estático e, numa milésima de segundos, engendra uma profunda posição opinativa.

Amam-se desta forma. Ele papagueando a saber que ela o estaria a ver. Ela concretizando os seus desejos nos intensos minutos da reportagem do noticiário das 20h. São encontros seguros e fieis, aqueles que nunca tiveram durante o um-entre-muitos namoro de adolescência.

15 julho 2008

A Senhora das Pedras



Por: Catarina Abreu

Quem passa todas as manhãs pelo posto de gasolina da Terra Branca, uma das principais artérias da cidade da Praia, vê-a dobrada sobre si mesma à cata de pedras preciosas – o cascalho que lhe dá o pouco sustento que precisa. Pedra a pedra vai enchendo o seu balde de 5 litros, que despeja em montinhos de brita. E é assim que vai matando o seu vício, o do trabalho, aquele que não a deixa ficar sentada. Porque acredita que sentar é morrer. Aos anos que tem perdeu-lhes a conta, mas, se lhe observar as rugas, tal como se faz com as linhas dos troncos das árvores antigas, vê-se que deve estar próxima da idade centenária. Nha Maria é o nome próprio deste anónimo rosto que é a senhora das pedras.

São 10 da manhã e Nha Maria descansa o corpo franzino que parece não ter peso. Quando não está de cócoras, concentrada à busca de pedras contempla com orgulho os montinhos de cascalho que já conseguiu juntar. Ao todo são quatro. Acerco-me dela e Nha Maria retribui-me com um sorriso. Peço-lhe que me conte a sua história e noto que fica feliz por ter alguém com quem trocar dois dedos de conversa. Começa logo dizendo que tem o “vício do trabalho”. “Que quer? Que fique sozinha em casa sentada à espera que a vida passe até a morte chegar?”, questiona-me, respondendo assim à minha pergunta se esta não será uma rotina muito pesada e cansativa para ela.

Essa tal rotina de Nha Maria consiste em levantar-se cedo, tomar um copo de leite (conta que é dos poucos alimentos que não lhe causa fastio), e vir desde a sua casa, que “construiu com as próprias mãos” em Tira-Chapéu, até à Terra Branca onde passa a manhã naquele afincado labor. Até há uns meses atrás, ficava a trabalhar à tarde também, mas como o Sol de Verão fica mais forte não suporta o calor, o que a faz rumar a casa às 11 horas.

Nha Maria nasceu no Fogo, numa das localidades do interior de São Filipe. Veio para a Praia ainda pequena, onde casou e teve três filhos: dois biológicos, um dos quais já faleceu, e outro de criação. Depois do marido falecer e dos filhos casarem e rumarem para outras paragens, Nha Maria ficou sozinha. Mas não esmoreceu. Construiu com a força dos seus braços e a grandeza do espírito a casa onde vive. Concluído o ambicioso empreendimento, voltou a ficar sem ter o que fazer. Foi nessa altura que se virou para a apanha das pedras da ribeira na Terra Branca.

Não tendo como proteger o seu tesouro de cascalho, pede aos vizinhos que fiquem de olho método pouco eficaz perante a esperteza dos amigos do alheio. O único “ódiozinho” de estimação que guarda é de uma vizinha que garante ter-lhe roubado a brita, tendo-a depois vendido a um homem da Assomada. “Aquilo foi como me tirarem a colher de comida da minha boca e ter posto na sua”, afirma. “Ka ta fazedu!”

Nha Maria recebe a pensão social mínima de 3500 escudos. Pode subtrair o preço dos seus montinhos de cascalho até aos dois contos e 500. E soma ao seu pé-de-meia mensal as notas inconstantes daqueles que simpatizaram com a sua figura. Do total, dá algum à filha de criação. Diz que come pouco, costume comprovado pelas saliências ossudas do corpo magro que esconde entre panos e roupas. Perante a minha perplexidade de quem dá o que tão pouco tem, sorridente, esclarece-me: “Kel dinhero N ta da-l pa ses sinku fidju, pamodi N ka ta kume-l!”.

*Publicado na edição 857 do Jornal A Semana