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06 dezembro 2009

Onde está a luz?

À medida que o Outono se precipita para o Inverno vou vivendo cada vez mais de noite até que cheguei ao ponto de me sentir num breu completo. Acordo de noite e deito-me de noite. E durante o resto do dia – apesar de haver uma luz cinzenta – parece ser sempre noite. Por não haver luz, as pessoas também não têm luz. Só reflectem o nada. São anónimas e baças.

Eu também me sinto parte dessa massa compacta, alheia ao passar dos dias mascarados de noite. Vejo-me a mim igual à pessoa que vai à minha frente e à outra e à outra a seguir. Estou rodeada de espelhos que me reflectem e eu sou apenas mais um espelho que reflecte todos os outros. Todos iguais, ninguém diferente, agimos sempre sobre uma realidade automatizada que se desenrola segundo um procedimento pré-definido.


Porto/Guimarães, 02 de Dezembro de 2009

in: Os Diários no Comboio

17 novembro 2009

A Empresa

Trabalho na Empresa há duas semanas e dois dias. Todos os dias levanto-me às 6h45 se tiver que tomar banho de manhã ou às 7h se já tiver passado essa etapa na noite anterior. Visto-me com as roupas normais de mulher que trabalha na Empresa e passa o dia e os dias entre um monitor e uma cadeira: calças ou saia pelo joelho, botas de cano alto ou sapatos, blusa ou camisola de gola alta, roupas invariavelmente castanhas, pretas ou cinzentas, cabelo apanhado, base na cara para disfarçar as olheiras crónicas e o rímel para avolumar estas minhas curtas pestanas.

Depois preparo a marmita do dia: coloco o mini tupperware de sopa na lancheira azul, três peças de fruta, um pacote racionado de quatro bolachas de aveia e um iogurte de pêssego. Entretanto, já tirei do frigorífico o iogurte líquido para o meu pai que se levanta à hora certa para me levar à estação de comboio.

Ali, dirijo-me à bilheteira, digito o 825, pago os 2.15 euros e entro no comboio onde já reconheço as mesmas caras ensonadas de todos os dias. Uma hora e quarto depois – uma viagem ao som da TSF e das interferências, as 50 olhadelas em direcção ao placar electrónico para acompanhar o avanço no tempo e no espaço e umas sonecas que põem as minhas costas a clamar por socorro – saio do comboio e dirijo-me à Empresa.

Enfio o indicador no porteiro electrónico, empurro a porta pesada e dou o meu sempre bem-disposto “Bom dia!”. Os meus colegas dão-se beijinhos uns aos outros pela manhã mas eu, confesso, sinto-me bastante constrangida com essa coreografia estranha ausente de afectos. No início, os cerca de 50 trabalhadores daquela Empresa pareciam-me uma indistinta massa anónima que dava muitos beijinhos.

Sento-me na secretária, valido-me como uma legítima utilizadora de um sistema para o qual eu sou apenas um número. E começa o dia de labuta com duas paragens para café – uma de manhã e outra à tarde. A pausa maior é para o almoço, refeição que tomo também na Empresa.

Já noite regresso no mesmo comboio rodeada de caras menos frescas e olhares mais gastos – o dia passou e devo ter aproveitado no máximo 60 minutos de luz natural e é a altura em que uma vez ouvi alguém dizer algo que me avassalou por dentro: “Até já, vemo-nos dentro de umas horas”.

Chego a casa às 20h45 ou 21h45, conforme a duração da jornada. Fico junto da minha mãe a comer uma sanduíche e ouço o dia dela. Eventualmente, escrevo no blog e viajo por vidas mirabolantes com a novela da noite. E assim durmo.

No dia seguinte, a seguir e depois, o mesmo.

Quando era miúda nunca imaginei que fosse ter uma vida assim, normal. Há cenários que realmente não nos passam pela cabeça quando somos pequenos – nem como melhores, nem como piores hipóteses. Eu tinha pensado em tudo para mim, menos esta vida.

Que não se leia nesta descrição tons de queixa. Hoje esta vida normal que tenho é o que eu escolhi. É que as vidas exóticas são um engodo e dão muito mais trabalho do que se imagina, principalmente quando somos pequenos.


Porto/Guimarães, 17 de Novembro de 2009

in: Os Diários no Comboio

16 novembro 2009

Mayra Andrade - O início e o fim

Pressionando minusculamente uns botõezinhos do meu mp3, hoje lá consegui configurar este isqueiro rosa fucsia, que podia dar lume mas que dá música, a reproduzir wma (sendo que é tudo uma questão de tempo até algum chinês se lembrar da utilidade desta integração e qualquer dia tenho um mp3 que dá música e… lume).

Os dois álbuns que tenho em wma são da Mayra Andrade. E revelou-se-me: há quase três anos foi com o primeiro disco da Mayra que fui aprendendo as minhas primeiras palavras em crioulo (usava a metodologia de atentar às letras para saber a língua). Com o primeiro álbum fui navega(ndo) nas palavras, nas expressões, nas conjugações verbais. Lá aprendi o que quer dizer “Lapidu na bo”e como se cantam hinos à Lua para “lumia(r) nha corpo ku caima”. Foi a banda sonora dos meus primeiros dias e daquele chorrilho de descobertas, aprendizagens e emoções confusas mas tão, tão bonitas!
Dois anos e meio depois, fechava-se o ciclo: já aprendido o crioulo, já o funáná dançado, já o grogue bebido e já um país descoberto. A poucos dias do voo da TAP que me raptaria/salvaria do que foi Cabo Verde, ofereceram-me o segundo álbum da Mayra. E nos meses seguintes ao regresso desejado/forçado foi banda sonora de uma saudade quase física, quase palpável, do desmame daquela que foi a minha terra mãe adoptiva com quem tive uma intempestiva relação de amor/ódio.

O início:
“Bo seiva invadim nha coraçon
Sem limite
Ai! Si n pudesse beber un cálice di bo melodia
Bo feitice ta infeitiçam
Bo praga ta maldiçoam
Bo seca ta secam na peito
Ma mesmo assim djam kre bu morna”
(Regasu, 2006)

E o fim:
“Rainha na desamparo
Nsta djobi caminho
Ku spada i força di sodadi i dor
Ku alma livre na tempu
Nkre vivi ku odjus fitchadu
Pam teneu djuntu ku mi, ku mi…”
(Odjus fitchadu, 2009)
Porto/Guimarães, 16 de Novembro de 2009
in: Os Diários no Comboio

Caridades sazonais

“Dão-te um pedaço de pão como se dessem uma nota de mil, e acabando de o dar imaginam que têm abertas as portas do Paraíso. Pensa bem, que motivo os leva a fingir que são generosos? É para se porem em paz com a sua consciência, apenas para isso, meu pequeno. Atiram-te uma côdea e assim já não se envergonham de comer. É apenas por isso, não penses que é por terem pena de ti. O tipo que come de modo a saciar toda a fome é um selvagem e nunca tem pena do que tem a barriga vazia. O saciado e o faminto serão sempre inimigos, olharão sempre um pra o outro como cães prontos a engalfinharem-se. Não há possibilidade de se comoverem e de procurarem entender-se…”

in: "O avô Arkhip e Lionka", de Máximo Gorki (1868-1936)

Guimarães/Porto, 13 de Novembro de 2009

in: Os Diários no Comboio

11 novembro 2009

Mãe – Hoje não há adivinhações!

Hoje não me consigo perder em nenhuma história ou concentrar-me em qualquer expressão. Hoje quis que o dia passasse depressa e só penso na minha mãe. Penso no cheiro da minha mãe, no riso da minha mãe, nas mãos trabalhadas da minha mãe, nos olhos verdes da minha mãe, no narizito engraçado da minha mãe, na dedicação da minha mãe, do comprometimento incondicional da minha mãe, na nobreza da minha mãe, na sinceridade da minha mãe, na beleza da minha mãe e em todo este imensurável amor que tenho por ela.

Guimarães/Porto, 11 de Novembro de 2009

in: Os Diários no Comboio

A Manga

Nada o desconcentra daquela manga tão sumarenta. O rebuliço do comboio e os encontrões das pessoas na busca de um lugar sentado não o perturbam.

Corta minuciosamente aquela manga, com uma concentração incomum, arregalando os olhos à medida que a descasca com cálculos milimétricos. Péla a manga cirurgicamente com um canivete, começa por fazer um corte a direito, um perpendicular e outro paralelo ao primeiro. Conclui a operação e forma então um cubo que arranca e delicia como se fosse de todos os manjares o maior. Vai fazendo linhas de três cubos cada. Parece-me que a manga está no ponto ideal, nem um dia a mais, nem um dia a menos – a casca é intermitentemente verde e vermelha, por dentro é amarela madura com cada fiapo a formar uma goma compacta doce. De golpe em golpe, um cubo, dois cubos, três cubos, chega ao caroço estropiado e - finalmente - suga-o para evitar qualquer desperdício.

Nelson traz um saco plástico que deduzo ser da Ajuda Alimentar. É muito alto e encorpado, apesar de ser magro. Tem uma cabeça desproporcional ao corpo. Cabelo ralo e fino, barba por fazer, um rosto sulcado de ossos cobertos por uma fina película de pele baça. Os olhos são enormes, imensos e profundamente aterrados em duas camadas de olheiras pretas. Estão sempre muito abertos como se com eles quisesse consumir o mundo todo.

No outro saco plástico tem quatro velhas e lidas e relidas revistas cor-de-rosa negro que lê com a mesma atenção que lhe mereceu a manga. Podia ser mais um qualquer arrumador de carros que circula nos suburbanos do Porto à socapa dos revisores. Mas ninguém poderia ficar indiferente à forma de comer aquela manga. Até eu que nem gosto de manga, me deu vontade de comer uma!


Guimarães/Porto, 10 de Novembro de 2009

in: Os Diários no Comboio

Exercícios de adivinhação

Alguma vez, numa das muito rotineiras viagens de transportes públicos, se perderam em pensamentos sobre uma ou outra pessoa que vai à sua frente? Deram-lhe um nome, adivinharam-lhe a idade, imaginaram-lhe uma história? Eu sim. Faço-o constantemente. Não consigo controlar-me e quando me apercebo já estou a traçar um passado e um futuro a alguém que sobressai na massa anónima que todos os dias circula no meu comboio.

Guimarães/Porto, 09 de Novembro de 2009

in:Os Diários no Comboio